I.

Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas.

Soneto 18 - Shakespeare 
Tradução por Geraldo Carneiro

Recentemente revisitei o Soneto 18 de Shakespeare, que li pela primeira vez aos 16.

Há algo sublime em palavras ecoarem na mente e aniquilarem o som da voz.

Há um dom intransponível naquele que, ao escrever, lança seu efêmero legado no existir do mundo.

É como remexer a maré do oceano profundo da alma.

É como transpor o espaço-tempo, através de memórias e sensações.

(...)

Confesso que isso me assombra mais do que eu gostaria.

Palavras, palavras, palavras…

Na mesma proporção da magia que carregam está o peso da responsabilidade do que representam – e de como fazem sentir.

E pensar que Shakespeare, sozinho, adicionou mais de 1.700 delas ao dicionário da língua inglesa, como:

  • “Uncomfortable” – Desconfortável, em Romeu e Julieta;

  • “Negotiate” – Negociar, em Muito barulho por nada;

  • “Assassination” – Assassinato, em Macbeth;

  • “Obscene” – Obsceno, em Trabalhos de Amores Conquistados;

  • “Addiction” – Vício, em Otelo, o Mouro de Veneza;

  • “Lonely” – Solitário, em Coriolano;

  • “Unreal” – Irreal, em Macbeth;

Palavras que antes não existiam, mas que usamos até hoje.

Instrumentos de expressão que transcendem séculos.

Que carregam no tempo a responsabilidade de transformar, ferir, curar…

Sementes que germinam todos os dias em campos alheios, 

pontes invisíveis entre universos internos.

Muito além da genialidade, para mim, Shakespeare mostra que palavras não são apenas criações, mas também novas realidades para quem alcançamos através delas.

Um efêmero legado que deixamos no mundo – sob a perspectiva do outro.

Carregar essa responsabilidade exige sabedoria, a consciência da escolha constante entre criar pontes ou levantar muros, entre criar luz ou alimentar sombras.

Mas como compreender esse efeito para além de mim, quando internamente ainda tanto me custa? 

(...)

"Tente criar uma palavra nova" – falei para mim mesma.

Uma palavra sobre algo ainda inominável.

Algo que você queira expressar, mas não seja possível.

Um conceito que te represente, já que tão deslocada do mundo.

Apenas tente. 

Recorte da obra Criança Morta (1944), de Candido Portinari

S A U D A D E

No idioma russo, o conceito substantivo de saudade conta com duas palavras (ckutchat e tocklivo).

No português (e alguns outros idiomas originados do latim), uma.

Na língua inglesa, a palavra saudade – no sentido que conhecemos – não apresenta nenhuma tradução literal. 

Por mais que seja possível expressá-la através da escrita, no inglês simplesmente não existe uma palavra substantiva para "saudade".

Sempre achei isso curioso…

Uma palavra que Shakespeare deixou de fora

Não que fosse de sua responsabilidade criá-la, claro.

Mas, teria ele conscientemente escolhido assim?

O interessante é que o Soneto 18 é justamente sobre isso: saudade.

"(...)

Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas."

Há uma aposta a ser feita aqui: a de que Shakespeare compreendeu que certos sentimentos não merecem ser contidos em uma única palavra.

Em verdade, há sentimentos tão vastos que apenas um conjunto de versos pode ser capaz de expressá-los com zelo e cuidado.

O que é saudade, afinal?

As palavras estão em todos os lugares.

Aqui estão elas!

E olha só o que trouxeram: 

Saudade.

Do ontem, do hoje, do amanhã.

De quem você pensa que foi.

De quem você acha que é.

De quem você acredita que será.

(...)

Toda vez que você deixa colocar suas palavras no mundo, você enterra:

- um conhecimento

- um sentimento;

- uma vivência;

- um sonho; ou

- um propósito.

O "eu te amo" da mensagem que você apaga.

O "perdão" que você não diz.

O projeto pessoal que você renuncia.

O e-mail com o pedido de demissão que você adia.

Há também o artigo que você não publica, ou o livro que você não termina.

Uma quase-morte que você escolhe todos os dias.

"Também temos saudade do que não existiu, e dói bastante."

Carlos Drummond de Andrade

Colocar esta newsletter no mundo não foi uma tarefa fácil.

Na verdade, ainda não é

(o desconforto é tanto, que o estômago até embrulha – sem exageros).

É igualmente desafiador confessar isso para você. 

(...)

Eu escrevo muito, todos os dias.

Como copywriter, não há um dia sequer que eu não escreva.

Mas escrevo para o outro, em nome do outro, para os sonhos do outro.

Estou tão acostumada a transformar ideias, emoções, conhecimentos ou projetos de outras pessoas em palavras… 

que, não raro, me perco de mim.

Talvez seja por isso que colocar uma newsletter no mundo me seja tão difícil, 

Pois, em certa medida, sou como uma rosa sem espinhos.

E por mais que criar espinhos incomode,

Florescer é preciso.

Recorte da obra Still Life with Flowers (1617), de Ambrosius Bosschaert the Elder

Pobre marujo no ardor do dia,
cuja piedade lhe é devida o mundo

Seu suplício é como fuga,
na miserancolia que lhe assombra

Sob seus olhos, infinitos, é revelada a cura
do mesmo oceano imbatível que lhe deu a glória

Eis que agora outra jornada acusa,
de que a joia não mais reluz distância
Se enquanto órfão da aflição mais pura,
por qual razão é que navega?

Este soneto foi feito por mim, especialmente para a primeira edição desta newsletter.

"Soneto", pois me permiti essa apropriação literária…

para, quem sabe, me eternizar também.

Em breve volto a te encontrar em novas palavras!

Com amor,

Gabi.

🌷 Escute a Música 

("Litost" é uma palavra tcheca intraduzível para outros idiomas)

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